6 de setembro de 2014

Recluso.

Sinto-me horrível. O passar dos dias e minha maneira de ver a vida têm me tornado alguém bem pouco amável, e numa fase em que isso é péssimo. Estou apenas trabalhando, e ver meus amigos ultimamente é um processo ativo, e tenho tão pouco dinheiro que não consigo ir aonde eles vão, ou mesmo chamá-los para fazer alguma coisa qualquer. Há, inclusive, um pessimismo neles que torna minha ausência uma má-vontade em suas cabeças. Que dizer? Eu sou o otimista, o que conta piadas e faz trocadilhos que os alegram. Sou eu quem tem que preencher o lugar com alegria, mesmo que eu não a sinta de modo algum. É ruim saber que minha identidade não está dissociada desse aspecto. Na verdade, é ruim saber que minha identidade está atrelada a tantas coisas que não faço mais. Não toco mais piano há mais de dois anos, não consigo desenhar há alguns meses, são raros os dias em que me animo para ir à escola treinar kung fu, e quando vou faço tudo errado.

Recentemente estive com alguém chorando por horas ao meu lado, e não consegui fazê-la sorrir nem de leve. Fiquei em silêncio; aos poucos minha existência saía do meu corpo e só conseguia emitir respostas sem pensar. Meus braços gelados não conseguiam nem aquecer com um abraço. Totalmente impotente, inútil, inexistente. O envolvimento emocional que eu tive sublimou, mas eu senti o tempo passar como marteladas contra meu crânio. Minha frieza foi posta à prova, e fui embora sem treinar outra vez, pois senti ter sido a pior e mais vazia companhia que alguém poderia ter tido. Arrependido. Sensação nova, e angustiante.
 
Fui recebido em casa com a notícia de que meu humorista favorito cometeu suicídio.

Não cabe em palavras o quanto isso me fez sofrer. É mais do que uma personalidade, é um símbolo. Já havia pensado no quanto seria terrível chegar a um ponto onde não pudesse ser mais reconhecido por nenhum motivo que fosse. Afinal de contas, o reconhecimento foi o que me trouxe à vida, desde criança. Nunca fui menos do que uma pessoa impressionante, ainda que não chamasse a atenção por ser bonito (é um sonho outrora muito íntimo meu). Aqueles anos em que eu desenhava o Homem-Aranha, e dragões diversos e era cretino o suficiente para esfregar diante de meus professores o fracasso de suas aulas de tabuadas, foram elíseos. Ao contrário de meus amigos, não importava se eu tinha qualquer beleza ou se era um gênio, rico ou bom de briga. Quando eu desenhava, todos se aglomeravam ao meu redor. Os que eu amava, os que eu detestava, e os que eu nem sequer conhecia.

Meu hiato criativo hoje me impede de desenhar, desaprendi a tocar piano, não treino há semanas e os recentes eventos me botaram em uma profunda tristeza. Nem meu humor me traz reconhecimento, pois agora o esperado de mim é lançar um comentário jocoso que faça qualquer emoção se tornar pueril e darmos risadas, mas não consigo ver minha vida com olhos brilhantes. Agora que a rota de fuga que eu tinha para não lidar com minhas piores emoções está interditada, queria somente desaparecer sem deixar rastros por várias semanas.

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