10 de agosto de 2014

Catarse 1.

Aprecio todos os meus sentidos. Mas sabe, poucas coisas são mais saborosas, ou mais excitante aos sentidos do que uma mentira mal-contada. Ainda mais as mentiras mal-contadas sistematicamente. É uma delícia ler ou ouvir as palavras com esses significados; e tenho bons motivos para crer que uma mentira diz mais a respeito de alguém do que uma verdade. Às vezes até persisto com o interrogatório, para que minta um pouco mais. Há, frequentemente, mesclas com verdades ou meias-verdades, para tentar inculcar qualquer sorte de confiabilidade em mim. Finjo que acredito, mas querendo saber mais. E serve-me novamente o prato com outra fartura de mentiras ardilosas.

Quatro anos atrás, num dia ensolarado, encontrei uma ex-namorada no ponto de ônibus. Aliás, nenhum parágrafo tem relação com o anterior. Enquanto namorávamos, ela era consideravelmente mais baixa que eu, tinha cabelos curtos e bem mais magra. Naquele momento já estava uns quatro dedos mais alta, um pouco mais gordinha e tinha cabelos compridos até os ombros. Vamos ao que lembro. Tirei minha blusa e fui falar com ela, ainda que soubesse que ela me ignoraria se eu o fizesse também. Devo ter parecido um tonto, porque fitava ela da cabeça aos pés, vendo que vestia roupas esportivas e que sua aparência ainda era muito sexy pra mim. Ardentemente sexy. Engraçado como tudo morreu, exceto essa mordente atração física.

Em outra época, aquele amor à distância com uma moça de Juiz de Fora. A que me conquistou com seu timbre e sotaque direto nos meus ouvidos, antes de dormir. Docemente apaixonada, encantava-me sem desperdícios; expressava cada minúscula ternura que sentia, e inspirava-me a fazê-lo com igual intensidade. Depois de alguns meses primorosos de outono, que até sobrepujariam a vida amorosa que eu tinha em minha cidade, chegava um inverno cruel de tão frio e chuvoso. Meu sol de inverno que aquecia o coração foi saber que a veria pessoalmente. Por alguns minutos, é claro, mas finalmente em pessoa. Atravessamos o aeroporto conversando entusiasticamente, tão bem quanto sempre. Ao sair de lá, dividimos o guarda-chuva para chegar até o carro. Na despedida entreguei um presente que minha mãe fez para ela, e tive um beijo recusado. Em seguida ela entrou no carro sem dizer nada, e foi embora. Nunca consegui escrever sobre isso, e mesmo agora ainda não passa de um vômito de palavras.

Hoje é dia dos pais. Perdi a conta de quantos anos consecutivos eu não consigo mover efetivos para dar os parabéns ao meu pai biológico. Há tantas pessoas em minha vida que, sozinhas, representam maior afeto e participação na minha vida: mãe, irmãos mais velhos, Mestre, professores, melhor amigo e ex-veteranos da universidade em que estudava. É ruim lançar essas coisas no ar assim gratuitamente, mas invejo famílias unidas e felizes.

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