6 de junho de 2013

Sobrecarga.

Desde outubro tenho acordado cedo todos os dias. Às vezes, não mais que duas vezes por mês que posso dormir à vontade. Claro que esses dias são mais propícios para desfrutar do silêncio da noite fazendo algo. Relaxar um pouco e curtir minha vida acordado de alguma forma... Pois após o alvorecer, é tudo invadido pelo caos do mundo fora de casa, dos horários e compromissos, todos desordenados. Cabe a mim decidir como irei resolvê-los, por qual começo, qual termino. Mas como hoje é um dia de feriado, pude dormir até acordar...

Há semanas sinto que algo falta pra que me sinta pleno, ou que, no mínimo, me motive a continuar. O gatilho disso foi quando eu decidi finalmente deixar de me enganar que estava de fato motivado, de fingir que estava valendo a pena resumir minha vida num vício libertino turbulento. Assim como um animal recém solto de um cárcere, fiquei sem saber como reagir a essa súbita liberdade de consciência. O esperado então seria que me acostumasse a isso gradativamente, o que não sucedeu. Um crescendo de agonia marcou a partitura, que agora pausa após o primeiro sforzando. É bom que a sinfonia tenha pausado, dessa forma posso ouvir minha própria respiração por um segundo ou dois.

Respirar. No começo do ano fiz alguns exames para ver se havia algo de errado comigo, pois tinha dificuldade para respirar. Levou duas semanas e três exames para que o médico constatasse que meu problema era apenas de ansiedade. Foi bastante tranquilizante pra mim, as crises de ansiedade diminuíram vertiginosamente. Até o último incidente haviam se tornado raras. Pouco tempo depois deste, fui a um evento da faculdade que nos levou a uma chácara isolada para um churrasco de confraternização. Confesso que jamais senti um alívio tão pleno quanto o de quando cheguei lá. A pureza bucólica do lugar contrastava impactantemente com o ar de sujeira, cacofonia e violência da cidade que foi carregado conosco no ônibus.

Hoje acordei e, como de costume, revisei minhas tarefas do dia na memória. Imaginar a possibilidade de sair de casa e cumprir com responsabilidades fez com que algo comprimisse meu peito, permitindo apenas que eu respirasse o suficiente pra me manter acordado, embora tivesse sido invadido por adrenalina. Debaixo das cobertas, acordado, atarefado, porém paralisado. Que péssima situação para sofrer uma paralisia do sono. Devo ter me debatido mentalmente por poucos segundos, mas sabe como é, pareceram longos minutos. Enfim consegui me erguer, atirando o cobertor para o lado e levantando num sobressalto. Que diabos de sensação horrível!

Ainda que tenha dormido ao máximo, esse incidente fez com que eu esquecesse do sonho que eu tive, cuja lembrança que restou foi que havia sido um dos mais reconfortantes que já tive. Claro que pouco adiantaria lembrar dele, pois tenho as tarefas de casa para fazer e, acaso eu me sinta bem o suficiente, sair de casa para visitar um amigo. Já ligo o computador automaticamente, é meu meio de comunicação mais versátil, e por onde as pessoas mais me procuram para ajudá-las, ou só pra conversar, que seja. Abriguei mais uma responsabilidade ao assumir a posição de representante da minha turma na Universidade, então preciso lidar com e-mails, dúvidas, repasses e informações extras, antes mesmo de começar as tarefas gerais.

Responsabilidades. Estudar, fazer trabalhos da Universidade, ajudar os colegas, fazer todas as tarefas de casa e, sobrando algum tempo, trabalhar. Sorte que meu "emprego" é de freelancer, assim posso flexibilizar meus horários mais facilmente. Agora tenho outro desenho de tatuagem a terminar, nada difícil, apenas trabalhoso. Felizmente, tendo até sexta-feira que vem para entregar, há uma boa margem de conforto, só espero que até lá eu já tenha conseguido mais um lampejo de inspiração para fazê-lo num alto nível, valorizando a recompensa.

Ao meu lado, o teclado empoeirado onde eu aprendi a musicar. A partitura sobre ele aberta, como se eu de fato tivesse tempo e disposição para praticar mais. Há coisas que eu tenho dificuldade de assimilar, como, por exemplo, por que eu não pude mais conciliar minha vida letiva com a doméstica e a artística? E há os que reclamem de tédio. Oras, tenho trabalhos em geral da universidade, desenhos para clientes, desenhos para mim, estudar música, fazer as tarefas de casa (uma vez que moro só com minha mãe e ela tem problemas cardíacos), ler algum dos livros que ainda devo terminar, exercitar o corpo para tentar manter a saúde, e ainda penso que um dia deverei trabalhar com afinco!

Claro que ainda há o networking, amizades e tempo livre sim. Mas se o dia tivesse mais que vinte e quatro horas, seria bem interessante. Sabe, quero respirar, e não só isso, mas ficar quieto um pouco. Poder dizer "bem, aquilo pode esperar" e não ser mentira. Esse texto levou três semanas para ficar pronto, porque bem... Ele podia esperar. Assim como a aula que faltei hoje, pra terminar de escrever tudo isso.