6 de maio de 2013

Soporífero.

Que dias. Passei pela catraca do ônibus e fui até o fundo, onde há a maior concentração de pessoas com bom senso. Segurei nos encostos de dois assentos e notei que bem em minha frente estava uma moça linda, que, apesar de estar sozinha e com um livro no colo, não estava ensimesmada: enviava sms com o celular enquanto ouvia músicas nos fones. Fingi mexer no meu próprio celular também para prestar atenção no livro que lia e examiná-la melhor. Que situação. Morena de cabelo ondulado não muito comprido e óculos de armação preta. Vestia-se de vermelho e preto, usava botas elegantes e tinha uma bolsa também vermelha no colo. Coincidência cretina que, além de linda, ainda vestia-se com minhas cores favoritas! Ah, pare. O livro que lia era O Guia do Mochileiro das Galáxias. Achei... Simples. Não desagrada, nem necessariamente chama a atenção.
Eu também ouvia música nos fones e me deixei distrair por qualquer coisa que estava tocando naqueles instantes, nem lembro o que era. De canto de olho, vi que ela balançava a cabeça de forma bem acentuada. Que cena excêntrica: sintomas de privação do sono bem em minha frente! Que bela chance de chamar sua atenção para que se mantenha acordada, não acha? Também achei. Minha censura mo impediu. Tão simples. Espero que se repita, e então "Hey. Olhe aqui. Você não me conhece, mas está balançando a cabeça de uma forma bem engraçada. Como se chama?". Droga, temo ser mal-interpretado. Mas sei que aquele balançar de cabeça de quem se equilibra num cordão de vigília e cai sucessivamente em torpores dentro do ônibus é uma das cenas mais divertidas que conheço.
Na Universidade tem uma cadeira ideal, platônica, lá na frente da sala de aula (também platônica), de cara com a mesa platônica dos professores e quase sempre desocupada. "Quase sempre" porque existe meu traseiro. É uma ótima cadeira, pois posso ouvir facilmente mesmo os professores que só dão aula para si mesmos. O problema é enfrentar dias como hoje, em que a previsão de temperatura para o amanhecer é de 3º C. Mais quente do que o coração de muitos, eu diria. E depois de uma noite em claro escrevendo, (o que, com muita sorte, me permitirá lograr de umas duas ou quatro horas de sono), prevejo estar numa versão estática daquela moça do ônibus, mas durante as aulas. E os professores não temem que eu os interprete mal, não. Só nos renderia a todos umas boas risadas. Quem sabe com as linhas de Nazca no meu rosto por dormir sobre a espiral do caderno.

5 de maio de 2013

Recordare.

Em andante espressivo as notas eram sopradas de forma doce e gentil no mais estereotipado outono de minha vida. Reconhecerá, portanto, aqueles dias em que vestimos casacos, mas sem sentirmos frio ou calor. Dias em que sentimos o aroma das flores e folhas mortas entapetando o chão, úmido da breve garoa que caiu antes de amanhecer. O céu não está escuro ou azulado, mas branco feito sulfite seco. Encontrei a figura numa praça. Simples, simplíssima. Um sorriso lindo e um abraço bem forte.

Sentamos na grama, mostrei a ela alguns desenhos e conversamos por algumas horas. Lamentei que tivéssemos tantos compromissos com a vida e que dias livres e tranquilos como aquele seriam raros. Concordou comigo e dividimos então o que faríamos de nossas vidas de estudantes dali em diante. Como era começo de ano, nossas previsões eram modestas e até um pouco ingênuas. Ambos com ambições estratosféricas, mas com alguns anos de distância delas, estávamos confortáveis com o colegial e pequenos lazeres mesmo.

Depois de alguns abraços e muita conversa, pedi para deitar sobre suas pernas. O céu outonal não foi muito piedoso com meus olhos e fechei-os. "Só não durma", disse-me ela. Tínhamos horário pra voltar e, falando nisso, já era tarde! A matraca devorou vorazmente o tempo que tínhamos — e mais: nos esfomeara. Tomei consciência de por que as pessoas gostam de se encontrar para conversar em restaurantes, lanchonetes ou bares. Subimos então as escadarias do shopping ao lado da praça para comermos algo. Fiz o pedido e voltei à mesa com a nota fiscal de um pagamento de 550 reais por um lanche de menos de vinte reais. Surpresa, perguntou como tinha tanto dinheiro assim; expliquei que foi erro de digitação do balconista, e que guardaria a nota, pois nunca fora tão rico assim.

Convém observar que lembrei disso tudo ao abrir minha caixa de memórias; surpreendi-me com a riqueza de detalhes arraigada num mísero pedacinho de papel (essa mesma nota fiscal que mencionei), que tive de ler os detalhes para recordar. O cheiro do dia, da praça, do shopping, da nota (tem cheiro do dinheiro com que supostamente paguei os snacks), e mesmo o timbre da moça, que queixava-se de seu pessimismo, mas possuía atitude alegre. Acredito que escreverei mais sobre as reminiscências dessa caixa. Começar justo pelo item que me desperta o maior interesse e recorda-me de mais eventos é arriscado. Preencherei as lacunas dos demais como puder. Guardei a nota, enquanto lembrava do que sucedeu.

Comemos bem enquanto falávamos sobre música. Eu tinha um concerto da Orquestra Sinfônica para assistir dali algumas semanas, e ela um show de seu artista favorito dali alguns meses. Era um ótimo assunto, pois entendíamos o suficiente do que o outro gostava; e considerei que a preferência musical de um era a "coadjuvante" do outro. As palavras não paravam, mesmo enquanto voltávamos para casa. Não estava acostumado a interagir com pessoas mais inteligentes do que eu, e toda a experiência de passar a tarde jogando conversa pro ar com ela foi bastante cativante. Tímida, mas bastante sincera, tinha em suas palavras uma peculiar ternura.
Uma companhia fantástica.