28 de fevereiro de 2013

Fulgor.

Sentado num tapete sobre o carpete do quarto, com uma televisão daquelas semelhantes a um caixote preto, assistia ao Pequeno Urso, extremamente entretido. Adorava a diversão vivida pelos personagens e imaginava que ótimo não seria estar na pele deles, vivendo em casas simples, com problemas simples, amigos devotos e dias ensolarados. E mesmo que chovesse, ainda seria gostoso sentar na mesa e olhar para o quintal pela janela, para admirar as poças se formarem lentamente. Com vontade de brincar por lá quando a chuva parasse.

Não tinha dias diferentes disso na infância, pra ser bem franco. Talvez só quisesse ser um urso falante mesmo. Algo me faz idealizar bastante tudo isso, pois não havia preocupações grandes, as maiores eram os escândalos que fazia para não ter de arrumar o quarto. Mas quando arrumado, tudo o que fazia era ler ou ligar a televisão para fazer um ruído de fundo. E também ver os raios de sol sorrateiros invadirem meu quarto pela janela e baterem na cortina de dinossauros desenhados. Gostava de admirar a poeira que subia e fulgurava à luz do entardecer, parecia uma coisa mágica.

Era bastante religioso, orava pela menininha dos meus olhos todo dia antes de dormir e sentia-me tranquilo ao amanhecer. Gostava de entrar em igrejas, sentia-me em paz pois duvidava que qualquer coisa de mal poderia acontecer em lugares sagrados. Tentava e tentava ler a Bíblia e não conseguia, mas tudo o que aprendia, guardava fielmente. Por outro lado, livros com dinossauros eram outro grande amor. O motivo? Parque dos Dinossauros. Vivia uma paixão por cada um dos filmes, tínhamos uma edição especial de VHS do primeiro, e assisti com meu irmão mais velho o segundo filme no cinema. O terceiro vi com minha mãe, padrasto e melhor amigo, no cinema também.

Isso sem mencionar a série Em Busca do Vale Encantado, lindos longas. E claro, as centenas de miniaturas de dinossauros com seus nomes gravados na barriga. Aprendi a ler com os nomes: Pachicephalosaurus, Diplodocus, Tiranosaurus rex, Estegossauro, Galimimus, Velociraptor, Bracchiosaurus, Triceratops, etc. O sonho era de me tornar paleontólogo. Mas também idealizava meu pai, que se aposentou como Sargento do Exército. Enfim, o que sucede é que não almejo mais nenhuma dessas áreas.

Pessoalmente não consigo não imaginar aqueles anos como algo muito diferente das pinturas de William-Adolphe Bouguereau. Gosto de recordar. Já tinha dificuldade em relembrar os velhos anseios e como me sentia satisfeito e acobertado de qualquer dúvida. Escrever ajudou-me a aguçar a memória sobre detalhes que quase se perdiam. Ainda assim é impossível para mim perscrutar a própria infância e vê-la como algo menos do que belíssimo e ideal.

O mundo sob essa fantasia de acreditar em poder desenterrar e reviver dinossauros; rezar e os pedidos serem atendidos; ter família unida; primeiro amor certeiramente realizado; amigos para sempre; ser excepcional por apenas ser quem é, e acreditar na mágica das partículas de poeira sob a luz da janela... É tudo de um esplendor tão ingênuo, tão tolo e feliz. E estou coberto de censuras, ceticismo e desencanto dez anos depois.

Algo nisso me fascina.

21 de fevereiro de 2013

Noite.

Anoitece. Assim como em todos os seus contos, o breu adornava muito bem suas palavras com o encanto que ele mesmo sentia ao ver cintilarem os pontinhos prateados do firmamento. Primorosa sensação. Pois como o Sol não permite que nenhuma sombra seja tão naturalmente obscura quanto possa ser, algo tende a ficar perdido. Como se a claridade preenchesse a tudo de forma a espremer indiscriminadamente aquilo que toca. Comprime inclusive o pensamento de volta à mente, não o deixando transbordar a seus mais queridos amores com toda a sinceridade.

Mas não desta vez. Pois é um cão doente na rua que uiva à Lua Cheia. De aspecto enevoado, a Lua no céu se assemelha a uma pintura rococó de alguém com o coração sereno. Ao retornar a si, a caneta em sua mão tinha estragado uma folha com rabiscos acidentais enquanto se imaginava em outros lugares. O que importava era trazer o dia para a noite. Só não era um diário porque ele gostava de transformar as coisas que vivia em algo mais aparente, plástico e sentinte a quem quer que as lesse, seja logo em seguida ou dali dez anos.

Manipular a realidade é uma ambição dos escritores compulsivos. Seja a própria realidade ou a do mundo a seu redor, não importa. Escrevem o tempo todo. Senão de dia, escrevem à noite. Senão desta vez, daqui alguns meses quererão dizer tudo o que sentiram e não escreveram. Acaso podem escrever com desenhos; escrever com músicas; escrever na memória de alguém seus relatos... Mas ele queria apenas escrever novamente, e assim se dispôs. Em minutos preencheu uma página escrita, sem dizer quase nada.

Com música nos ouvidos foi mais fácil prosseguir. Hoje foi um dia lotado de afazeres e de indisposição para pô-los em prática. Nenhum transtorno, mas também nada especial. Apenas desejava perscrutar as catacumbas perdidas de Tutancamon num romance, mas sabia muito bem a distância que esse sonho estava de sua realidade. Perdera a animosidade que sentia na ideia de estudar Arqueologia e adquirira interesse maior em outras ciências. Quem sabe logo escreveria um outro romance sobre o que estuda, pois sem dúvidas os estudos lhe inspiram intensamente. Mas as catacumbas perdidas de Tutancamon (que talvez nem existam) trariam uma aventura alegórica interessante para abordar o que sentia nesta noite.

Escreveu então um longo texto sobre o passar do tempo e outro sobre sentir-se vivo. A primeira pessoa soou confortável para libertar-se das amarras do silêncio. Em dias tão livres, sentir-se acorrentado era o que ele menos desejava. Então escreveu sobre sentir-se independente, começou um conto também em primeira pessoa sobre um gato, mas não terminou nenhum dos dois. Como rabiscar o papel foi bom, afinal! Ainda havia tanto para dizer, tanto para ilustrar, tanto para examinar, e o tempo pareceu infinito. Porém não foi.

Uma pena a noite ter acabado tão abruptamente. Olha a janela, percebe o nublado do amanhecer e se espreguiça. É mais um dia a ser vivido, cujo anoitecer trará mais coisas a dizer. O retorno ao espaço de divulgação tem se mostrado muito saudável e alguns entraves foram solucionados com a ajuda da escrita. "Obrigado por escrever", foi o que eu lhe disse. Disse-me, então "obrigado por mo permitir". E foi a coisa mais sincera que já ouvi em toda a minha vida.

15 de fevereiro de 2013

Metaexistência.

Por um acaso talvez tenha lido meu post de apresentação e agradecimentos, e lembre de uma menção breve a um futuro texto em que abordaria sobre a busca da plena manifestação. Aproveitarei o tempo e criatividade sobressalentes desta madrugada para tentar elucidar essa questão de forma mais categórica, pois será também uma mão-na-roda: só pretendo divulgar o blog entre meus amigos quando tiver postagens suficientes para que tenham material em certa demasia para acompanhar. Logo, quanto mais textos, mais rápido publicarei.

Esse tema é recorrente comigo desde 2011, e meu amigo Charles não me permite mentir. Havia encontrado um livro na biblioteca do nosso colégio que tratava da Psicanálise dos Sonhos, ou Onirocrítica, e o devorei em poucos dias. Livro relativamente velho, mas de linguagem fácil e bem didático, que ensinava aspectos subjetivos da manifestação dos sonhos em nossa mente enquanto dormimos. Não havia referências explícitas nos textos, e a antiguidade do livro me fazia questionar um pouco seu valor científico, mas quando fui buscar interpretar os sonhos de meus amigos com base nele, percebi uma correlação espantadora com a realidade dos sentimentos em que estavam imersos.

Certamente não tenho (ainda) a menor autoridade para falar de certezas quanto a essa área do conhecimento; o que realmente importa é um dilema que surgiu daí em diante. Uma dualidade à qual jamais escapei dali em diante: subjetivo e manifesto. Há um punhado de aspectos seus que você manifesta e vários outros que você reprime; essa parte é óbvia. Em sua mente há algo que processa seu comportamento, censurando alguns aspectos e libertando outros. E que muitas vezes algo de nós é tão bem censurado e silenciado que acreditamos não existir, e que sejamos totalmente incapazes de manifestar tal comportamento.

Em seu sonho as regras são outras, ou melhor, praticamente não há regras. Você mata, salta de prédios, faz sexo em público e até mesmo voa, sem questionar de fato por que antes não o podia fazer e naquele devaneio lhe é tão natural. Como se tivéssemos um "eu" de superfície, ponta de iceberg, e um outro "eu" desconhecido, desregrado e infinito, oculto somente pela nossa censura. Um "eu" que se manifesta nos sonhos com base nos nossos desejos mais íntimos, que muitas vezes não confiamos segredar à nossa própria lucidez.

Nota: a algum psicólogo que ler isso e notar erros muito grotescos, sinta-se livre para me corrigir.

Científico ou não, o que sucedeu depois de verificar os textos tautológicos e sem referências até o fim, comecei a me perguntar que tipos de comportamento que eu tenho acordado e dormindo. Apaguei o blog antigo porque estava tendo cada vez mais dificuldades de lembrar dos meus sonhos (o que rareava crescentemente as publicações que faziam jus ao título), e também porque a maioria dos quais revelara coisas extremamente íntimas minhas sem que eu soubesse, e tive algum medo de continuar desnudando essas coisas para que qualquer pessoa possa interpretar.

Então digamos que entendi mais detalhes sobre mim e deixei de analisar sonhos, tanto os meus quanto os dos outros; decidi protelar esses estudos para quando for aprender bem apenas o que a ciência atual diz sobre eles. Contudo não deixei de me estudar para verificar quem eu realmente sou. Existo? Existo sim. Mas não em um lugar e de um jeito, mas de centenas de formas diferentes, falando vários dialetos tribais, vestindo-me diferentemente, alterando os vocábulos, gírias, entonações e graus de autoridade. Percebi ser tantos que duvidei ser mesmo um.

A busca pela plena manifestação surgiu então diante de novas experiências sociais. O ano de 2012 trouxe algumas oportunidades de encontros, desencontros e reencontros; e trabalhar minha personalidade para expressar a minha melhor essência foi uma das metas a atingir, pois percebi que em determinadas situações era difícil se mostrar de alguma forma destacado, sem mencionar que ser mais um na multidão jamais foi meu intento. É possível que seja apenas um lapso de vaidade, tanto artística como intelectual, mas pelo menos consegui tomar meu lugar entre as pessoas que eu queria. O que incomoda ainda é não ter domado muito bem essa minha expressão.

Pois bem, estou a alguns meses de entrar na universidade, que será palco de diferentes e novas experiências sociais, e não sei o que esperar. Resta batalhar um pouco mais para chegar a certo nível de realização que representará o penúltimo setor da minha pirâmide de Maslow. Espero que a Psicologia me auxilie nessa busca de auto-conhecimento, pois não é o emprego que almejo, mas algumas soluções para evitar morrer com assuntos pendentes. Caso contrário, optaria pelas artes sem pestanejar.

14 de fevereiro de 2013

Cronos.

Já se pegou alguma vez matutando sobre um passado não muito distante, considerando a possibilidade de retornar e tirar melhor proveito de seu presente alterando alguma decisão simples? É verdade que não precisamos de forma alguma voltar ao passado para moldar o futuro à silhueta dos nossos ideais. Mas talvez apenas o ser humano menos racional não contemple esse pequeno desejo de reparação com seu passado. Sinto-me meio Dom Casmurro replicando minha antiga casa afim de reviver alguma doçura de tempos primorosos, ao repensar o passado desta forma. Não me contento em reconstruir a aparência, tento até viver alguma parte para me sentir satisfeito com a experiência. Mas tanto mudou.

A palavra "nostalgia" se torna obsoleta em definição para este momento. Diria que está longe de ser um saudosismo, aproxima-se de um desejo holístico de revolução. Sem o menor medo do meu futuro atual, mas sob a iminência do descontento acerca de uma ou mais decisões perdidas no passado. A História nunca permitiu ao homem mudar aquilo que já criou, embora tenha permitido aprender com erros da futilidade e tomar decisões mais acertadamente. Algo no passado me faz pensar, e a divagação surgiu em dúvidas inquietantes. Dúvidas que surgem na sensação de ter visto algo de relance e depois tentado examinar melhor.

Li Dom Casmurro e não sabia se voltara três ou dez anos no passado. Em toda a minha vida de coração aberto, fui um "Bentinho" ao meu tipo. Sempre houve algo que fazia realmente me entregar de corpo e alma a gracejos infantis e sinceramente devotos à pessoa a quem escolhesse me encantar. Era um adolescente aos nove anos, e uma criança aos dezessete, e reconhecia isso muito bem em ambas as idades. Sucedeu que nenhum dos casos gerou frutos doces, e enfrentei períodos relativamente longos de angústia (creio que isso tenha alguma influência forte na minha personalidade sazonalmente introvertida).

Aprecio Machado de Assis por ter me ensinado mais algo. A lição a ser tirada de Dom Casmurro por mim não teve mais relação com o passado, mas com o futuro. Imagine-se tomando tantas decisões maduras e criando seu futuro conforme seus desígnios. Superando expectativas, sendo contemplado pela melhor das fortunas quando apostar no acaso. Claro que trago isso à minha realidade, pois é um tempo em que as decisões permanentes têm resultado nas melhores formas possíveis, e diria que estou no caminho de ser um homem satisfeito com a própria vida (o que por si só já me satisfaz bastante). Decerto que apenas envolver-se no lustro de ter seus desejos realizados não faz um homem feliz. Talvez essa conclusão seja demasiado óbvia para quem a lê despretenciosamente assim, porém é muito mais enevoada quando sua mente busca pear o seu realismo com delírios de um futuro brilhante.

Então tentei assistir à novela Capitu. Um episódio bastou pra eu chorar até doer a barriga, de tanto soluçar. Dramático assim. Porque... Estranhamente algumas coisas a gente aprende a calar dentro de nós. Averiguamos, raciocinamos, deixamos de lado, esquecemos quase completamente. O que não necessariamente resulte em amnésia total, como visto. Basta um vislumbre e lembramos detalhes, frases, horas inteiras, semanas, meses e anos! Nossa lupina imaginação cria o restante, e devora tudo a sangue frio e se debatendo sob as garras e presas da matilha!

Não é minha pretensão ser muito prolixo por aqui, mas era o que eu tinha em mente desta vez, e que me tirou três noites de sono. Talvez possa presumir que algumas pontas nós não atamos. Então o rígido e supostamente inabalável alicerce que criamos com tanto esforço se revela menos estável do que esperávamos. Porfim, escrevemos sobre isso em busca de respostas.