4 de abril de 2017

Verificação cíclica de redundância.

Fogem de meu controle as palavras, que viram frases, que viram discursos, que viram monólogos. Diante do silêncio, eu olho para as cinzas e percebo que incinerei tudo o que eu tinha.

Este é o espaço onde eu poderia tentar destilar minha culpa em mil palavras, mas não bastaria. Retroalimentaria o ciclo. Afinal de contas, não há nada que eu deseje que não se realize. E meu desejo agora me destruiria novamente, de uma maneira ainda mais brutal. Vitimizo meu próprio coração com meus anseios egoístas e arrogantes, sem, no entanto, ponderar os danos.

Alucinado, não sei se faço mais mal a mim ou à droga que injetei no braço. "Esta é a última vez", sempre digo, já não mais como se fosse realmente parar, mas anunciando o próximo ciclo. "Esta é a última vez", digo, igual ao ritual de buscar o jornal na porta de casa antes de começar o dia.

É tempo de abandonar esse ciclo, portanto. Minhas emoções estão em guerra total.

6 de setembro de 2014

Recluso.

Sinto-me horrível. O passar dos dias e minha maneira de ver a vida têm me tornado alguém bem pouco amável, e numa fase em que isso é péssimo. Estou apenas trabalhando, e ver meus amigos ultimamente é um processo ativo, e tenho tão pouco dinheiro que não consigo ir aonde eles vão, ou mesmo chamá-los para fazer alguma coisa qualquer. Há, inclusive, um pessimismo neles que torna minha ausência uma má-vontade em suas cabeças. Que dizer? Eu sou o otimista, o que conta piadas e faz trocadilhos que os alegram. Sou eu quem tem que preencher o lugar com alegria, mesmo que eu não a sinta de modo algum. É ruim saber que minha identidade não está dissociada desse aspecto. Na verdade, é ruim saber que minha identidade está atrelada a tantas coisas que não faço mais. Não toco mais piano há mais de dois anos, não consigo desenhar há alguns meses, são raros os dias em que me animo para ir à escola treinar kung fu, e quando vou faço tudo errado.

Recentemente estive com alguém chorando por horas ao meu lado, e não consegui fazê-la sorrir nem de leve. Fiquei em silêncio; aos poucos minha existência saía do meu corpo e só conseguia emitir respostas sem pensar. Meus braços gelados não conseguiam nem aquecer com um abraço. Totalmente impotente, inútil, inexistente. O envolvimento emocional que eu tive sublimou, mas eu senti o tempo passar como marteladas contra meu crânio. Minha frieza foi posta à prova, e fui embora sem treinar outra vez, pois senti ter sido a pior e mais vazia companhia que alguém poderia ter tido. Arrependido. Sensação nova, e angustiante.
 
Fui recebido em casa com a notícia de que meu humorista favorito cometeu suicídio.

Não cabe em palavras o quanto isso me fez sofrer. É mais do que uma personalidade, é um símbolo. Já havia pensado no quanto seria terrível chegar a um ponto onde não pudesse ser mais reconhecido por nenhum motivo que fosse. Afinal de contas, o reconhecimento foi o que me trouxe à vida, desde criança. Nunca fui menos do que uma pessoa impressionante, ainda que não chamasse a atenção por ser bonito (é um sonho outrora muito íntimo meu). Aqueles anos em que eu desenhava o Homem-Aranha, e dragões diversos e era cretino o suficiente para esfregar diante de meus professores o fracasso de suas aulas de tabuadas, foram elíseos. Ao contrário de meus amigos, não importava se eu tinha qualquer beleza ou se era um gênio, rico ou bom de briga. Quando eu desenhava, todos se aglomeravam ao meu redor. Os que eu amava, os que eu detestava, e os que eu nem sequer conhecia.

Meu hiato criativo hoje me impede de desenhar, desaprendi a tocar piano, não treino há semanas e os recentes eventos me botaram em uma profunda tristeza. Nem meu humor me traz reconhecimento, pois agora o esperado de mim é lançar um comentário jocoso que faça qualquer emoção se tornar pueril e darmos risadas, mas não consigo ver minha vida com olhos brilhantes. Agora que a rota de fuga que eu tinha para não lidar com minhas piores emoções está interditada, queria somente desaparecer sem deixar rastros por várias semanas.

10 de agosto de 2014

Catarse 1.

Aprecio todos os meus sentidos. Mas sabe, poucas coisas são mais saborosas, ou mais excitante aos sentidos do que uma mentira mal-contada. Ainda mais as mentiras mal-contadas sistematicamente. É uma delícia ler ou ouvir as palavras com esses significados; e tenho bons motivos para crer que uma mentira diz mais a respeito de alguém do que uma verdade. Às vezes até persisto com o interrogatório, para que minta um pouco mais. Há, frequentemente, mesclas com verdades ou meias-verdades, para tentar inculcar qualquer sorte de confiabilidade em mim. Finjo que acredito, mas querendo saber mais. E serve-me novamente o prato com outra fartura de mentiras ardilosas.

Quatro anos atrás, num dia ensolarado, encontrei uma ex-namorada no ponto de ônibus. Aliás, nenhum parágrafo tem relação com o anterior. Enquanto namorávamos, ela era consideravelmente mais baixa que eu, tinha cabelos curtos e bem mais magra. Naquele momento já estava uns quatro dedos mais alta, um pouco mais gordinha e tinha cabelos compridos até os ombros. Vamos ao que lembro. Tirei minha blusa e fui falar com ela, ainda que soubesse que ela me ignoraria se eu o fizesse também. Devo ter parecido um tonto, porque fitava ela da cabeça aos pés, vendo que vestia roupas esportivas e que sua aparência ainda era muito sexy pra mim. Ardentemente sexy. Engraçado como tudo morreu, exceto essa mordente atração física.

Em outra época, aquele amor à distância com uma moça de Juiz de Fora. A que me conquistou com seu timbre e sotaque direto nos meus ouvidos, antes de dormir. Docemente apaixonada, encantava-me sem desperdícios; expressava cada minúscula ternura que sentia, e inspirava-me a fazê-lo com igual intensidade. Depois de alguns meses primorosos de outono, que até sobrepujariam a vida amorosa que eu tinha em minha cidade, chegava um inverno cruel de tão frio e chuvoso. Meu sol de inverno que aquecia o coração foi saber que a veria pessoalmente. Por alguns minutos, é claro, mas finalmente em pessoa. Atravessamos o aeroporto conversando entusiasticamente, tão bem quanto sempre. Ao sair de lá, dividimos o guarda-chuva para chegar até o carro. Na despedida entreguei um presente que minha mãe fez para ela, e tive um beijo recusado. Em seguida ela entrou no carro sem dizer nada, e foi embora. Nunca consegui escrever sobre isso, e mesmo agora ainda não passa de um vômito de palavras.

Hoje é dia dos pais. Perdi a conta de quantos anos consecutivos eu não consigo mover efetivos para dar os parabéns ao meu pai biológico. Há tantas pessoas em minha vida que, sozinhas, representam maior afeto e participação na minha vida: mãe, irmãos mais velhos, Mestre, professores, melhor amigo e ex-veteranos da universidade em que estudava. É ruim lançar essas coisas no ar assim gratuitamente, mas invejo famílias unidas e felizes.

18 de maio de 2014

Torpe.

As imagens daquilo que eu enxergava, copo após copo, tornavam-se progressivamente mais turvas e vibrantes. Não via cores, via distinções, reconhecia pessoas quando me concentrava, e nada me escapara da memória, contrariando ao senso comum. Não perdi o equilíbrio e ri de tudo com uma euforia sincera que há muito desconhecia. Foi a primeira bebedeira que tive, bem mais tardia que a de meus amigos. E foi tamanha, que morreria se não vomitasse. Meu organismo se livrou de um estômago cheio de vodka, mas ainda assim estava tão embriagado quanto uma pessoa poderia estar.

Os minutos em que me alienei da festa para recuperar a saúde duraram horas no mundo real. Não desmaiei, e quando retomei as forças ainda estava tão bêbado quanto antes. A partir daí, não censurei nenhuma vontade minha, dei vazão a instintos e desejos que não me permitia antes. Descobri coisas novas da minha sexualidade e conheci o íntimo de pessoas que outrora mal falavam comigo. Nada disse sobre as coisas que me incomodavam e, sem dúvidas, nada mais me incomodou.

No dia seguinte comemorei silenciosamente por não ter sofrido nada daquilo que descrevem como "ressaca", enquanto voltava para casa. Com a consciência tranquila e repleto de uma satisfação excêntrica, reavaliei minhas condutas e tudo me assegurava de não ter feito nada de ruim para ninguém ou para mim. Ao chegar em casa e descansar propriamente, a sensação de paz foi enorme. Deixei pra trás uma uma montanha de satisfações que não precisaria mais dar. E tive diversão bastante para uma semana.

6 de junho de 2013

Sobrecarga.

Desde outubro tenho acordado cedo todos os dias. Às vezes, não mais que duas vezes por mês que posso dormir à vontade. Claro que esses dias são mais propícios para desfrutar do silêncio da noite fazendo algo. Relaxar um pouco e curtir minha vida acordado de alguma forma... Pois após o alvorecer, é tudo invadido pelo caos do mundo fora de casa, dos horários e compromissos, todos desordenados. Cabe a mim decidir como irei resolvê-los, por qual começo, qual termino. Mas como hoje é um dia de feriado, pude dormir até acordar...

Há semanas sinto que algo falta pra que me sinta pleno, ou que, no mínimo, me motive a continuar. O gatilho disso foi quando eu decidi finalmente deixar de me enganar que estava de fato motivado, de fingir que estava valendo a pena resumir minha vida num vício libertino turbulento. Assim como um animal recém solto de um cárcere, fiquei sem saber como reagir a essa súbita liberdade de consciência. O esperado então seria que me acostumasse a isso gradativamente, o que não sucedeu. Um crescendo de agonia marcou a partitura, que agora pausa após o primeiro sforzando. É bom que a sinfonia tenha pausado, dessa forma posso ouvir minha própria respiração por um segundo ou dois.

Respirar. No começo do ano fiz alguns exames para ver se havia algo de errado comigo, pois tinha dificuldade para respirar. Levou duas semanas e três exames para que o médico constatasse que meu problema era apenas de ansiedade. Foi bastante tranquilizante pra mim, as crises de ansiedade diminuíram vertiginosamente. Até o último incidente haviam se tornado raras. Pouco tempo depois deste, fui a um evento da faculdade que nos levou a uma chácara isolada para um churrasco de confraternização. Confesso que jamais senti um alívio tão pleno quanto o de quando cheguei lá. A pureza bucólica do lugar contrastava impactantemente com o ar de sujeira, cacofonia e violência da cidade que foi carregado conosco no ônibus.

Hoje acordei e, como de costume, revisei minhas tarefas do dia na memória. Imaginar a possibilidade de sair de casa e cumprir com responsabilidades fez com que algo comprimisse meu peito, permitindo apenas que eu respirasse o suficiente pra me manter acordado, embora tivesse sido invadido por adrenalina. Debaixo das cobertas, acordado, atarefado, porém paralisado. Que péssima situação para sofrer uma paralisia do sono. Devo ter me debatido mentalmente por poucos segundos, mas sabe como é, pareceram longos minutos. Enfim consegui me erguer, atirando o cobertor para o lado e levantando num sobressalto. Que diabos de sensação horrível!

Ainda que tenha dormido ao máximo, esse incidente fez com que eu esquecesse do sonho que eu tive, cuja lembrança que restou foi que havia sido um dos mais reconfortantes que já tive. Claro que pouco adiantaria lembrar dele, pois tenho as tarefas de casa para fazer e, acaso eu me sinta bem o suficiente, sair de casa para visitar um amigo. Já ligo o computador automaticamente, é meu meio de comunicação mais versátil, e por onde as pessoas mais me procuram para ajudá-las, ou só pra conversar, que seja. Abriguei mais uma responsabilidade ao assumir a posição de representante da minha turma na Universidade, então preciso lidar com e-mails, dúvidas, repasses e informações extras, antes mesmo de começar as tarefas gerais.

Responsabilidades. Estudar, fazer trabalhos da Universidade, ajudar os colegas, fazer todas as tarefas de casa e, sobrando algum tempo, trabalhar. Sorte que meu "emprego" é de freelancer, assim posso flexibilizar meus horários mais facilmente. Agora tenho outro desenho de tatuagem a terminar, nada difícil, apenas trabalhoso. Felizmente, tendo até sexta-feira que vem para entregar, há uma boa margem de conforto, só espero que até lá eu já tenha conseguido mais um lampejo de inspiração para fazê-lo num alto nível, valorizando a recompensa.

Ao meu lado, o teclado empoeirado onde eu aprendi a musicar. A partitura sobre ele aberta, como se eu de fato tivesse tempo e disposição para praticar mais. Há coisas que eu tenho dificuldade de assimilar, como, por exemplo, por que eu não pude mais conciliar minha vida letiva com a doméstica e a artística? E há os que reclamem de tédio. Oras, tenho trabalhos em geral da universidade, desenhos para clientes, desenhos para mim, estudar música, fazer as tarefas de casa (uma vez que moro só com minha mãe e ela tem problemas cardíacos), ler algum dos livros que ainda devo terminar, exercitar o corpo para tentar manter a saúde, e ainda penso que um dia deverei trabalhar com afinco!

Claro que ainda há o networking, amizades e tempo livre sim. Mas se o dia tivesse mais que vinte e quatro horas, seria bem interessante. Sabe, quero respirar, e não só isso, mas ficar quieto um pouco. Poder dizer "bem, aquilo pode esperar" e não ser mentira. Esse texto levou três semanas para ficar pronto, porque bem... Ele podia esperar. Assim como a aula que faltei hoje, pra terminar de escrever tudo isso.